Sobre simone HUCK

Simone Huck é paulista com alma em Lisboa. Formada em Artes Visuais pela Belas Artes de SP. Escritora e fotógrafa, coleciona olhares capturados por uma Nikon e um iPhone 7. Acredita que em breve passará seus dias dentro de uma ostra, catalogando imagens e palavras. Sentirá saudades do futuro. Também escreve para: http://www.febrecronica.blogspot.com.br

qUANDO você foi embora

DSC_0452_2

“Cabo da Roca”, Portugal – Simone Huck

Sonhei com você em pé na cozinha, encostada no fogão, fazendo pão com manteiga para o café da manhã. Sorrindo como você não sorria quando geralmente encostava no fogão. Você sempre preferiu costurar. Panos, palavras, pensamentos. Um cheiro de café da manhã invadiu a casa. No meu sonho, ainda era cedo para você morrer.

Foi mais uma lembrança adormecida, dessas que nos tomam ou nos sonhos, ou debaixo do chuveiro, ou simplesmente andando pelas ruas de todos os dias. Eu ainda não era uma mulher. Você ainda era uma mãe viva. A casa ainda não tinha sido vendida. O sonho retrocedeu nossa atual realidade e me depositou no ontem, onde tudo me parecia melhor.

Há tantos depósitos dentro de mim, mãe. Tantas caixas empilhadas. Poeira. Traças medonhas. Alguns cômodos tão bagunçados. Se você estivesse aqui eu pediria para me ajudar com essa poeira toda que se acumulou dentro da minha cabeça. Você sempre soube deixar tudo tão organizado e limpo. Eu ainda tropeço nos mesmos sapatos espalhados pelas ruas dos meus não-sei-de-mais-nada.

Daqui alguns dias fará cinco meses que nunca mais vi seus olhos verdes. Nunca fiquei tanto tempo sem te ver. Estranho não te ver mais…  (…) 

qUANDO você foi embora, perdi minhas asas… 

Anúncios

contingente

IMG_4851

“Havia anjos em cada entrada” – Porto, 2012 – Simone Huck

Você deve morar no inferno das coisas minhas. Na topografia dolorida que não mencionamos. Insiste. Assintomática. No lugar secreto de cada objeto meu. Dentro de obturações. Debaixo de alguma unha da minha mão direita. Na bifurcação da aorta. Sintomática. Deve estar no meu catarro. Entre vísceras e desassossego. Dentro da minha insônia. Debaixo da cama. Entre poeira e fantasmas. Jamais descansa. Sua insistência não foi feita para dormir. Pendurada aos meus alvéolos. Malabarista dos meus bronquíolos cansados. Seu fôlego nunca acaba. Meu pulmão direito – manco – é seu sorriso debochado. Você me goza de tanto rir. Ironiza com uma eterna presença tudo que chamo meu. Você deve morar no inferno das coisas minhas. Na cóclea dos anjos surdos que não podem me libertar.

mialgia

IMG_4644

“ruas de Lisboa”, 2012 – Simone Huck

Você coloca no prato um pedaço grelhado de ausência e uma porção generosa de vazio. Sua boca é um deserto faminto de esperas. Nota pelas unhas quebradas que está envelhecendo rápido. A gaveta dos dias permanece vazia. O tempo caminha para o fim.

Não há nenhum eco para dividir a solidão mecânica e diária frente à TV. A casa e a língua estão vazias. O controle remoto da vida está sem bateria. Acabou outra temporada. Mais um ano e ninguém chegou. Você não teve coragem de partir.