contingente

IMG_4851

“Havia anjos em cada entrada” – Porto, 2012 – Simone Huck

Você deve morar no inferno das coisas minhas. Na topografia dolorida que não mencionamos. Insiste. Assintomática. No lugar secreto de cada objeto meu. Dentro de obturações. Debaixo de alguma unha da minha mão direita. Na bifurcação da aorta. Sintomática. Deve estar no meu catarro. Entre vísceras e desassossego. Dentro da minha insônia. Debaixo da cama. Entre poeira e fantasmas. Jamais descansa. Sua insistência não foi feita para dormir. Pendurada aos meus alvéolos. Malabarista dos meus bronquíolos cansados. Seu fôlego nunca acaba. Meu pulmão direito – manco – é seu sorriso debochado. Você me goza de tanto rir. Ironiza com uma eterna presença tudo que chamo meu. Você deve morar no inferno das coisas minhas. Na cóclea dos anjos surdos que não podem me libertar.

Anúncios

mialgia

IMG_4644

“ruas de Lisboa”, 2012 – Simone Huck

Você coloca no prato um pedaço grelhado de ausência e uma porção generosa de vazio. Sua boca é um deserto faminto de esperas. Nota pelas unhas quebradas que está envelhecendo rápido. A gaveta dos dias permanece vazia. O tempo caminha para o fim.

Não há nenhum eco para dividir a solidão mecânica e diária frente à TV. A casa e a língua estão vazias. O controle remoto da vida está sem bateria. Acabou outra temporada. Mais um ano e ninguém chegou. Você não teve coragem de partir.